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maio 19, 2007

Neblina nua

Foto: Manuel A. Marques Lopes

Rasgas em mim a sede de me sentir alvo de sentidos
Potencias essa fúria ébria ao envolveres as asas de teu barco
Na solidão vazia...
Na neutralidade olfactiva de te procurar
Para saciar-me nas estradas tamanhas desse barco silente
Veleja-me... cobre-me na ruptura das águas
Muito antes de tudo fazer sentido
Muito antes de tu me fazeres sentidos
Os laços, os traços que essa tua água me dá...

maio 12, 2007

Calmante

Foto: Nanã Sousa Dias

Adoeço-me devagar entre as manhãs livres e as tardes incendiadas
E as noites ainda por dormir.
Adoeço-me sem pensar muito
Na melodia de meus olhos a enfrentar o sol
Latidos de agonia dentro da felicidade escassa de um sorriso-segundo
dentro de meu peito
dentro de minha fugacidade perversa de adoecer-me lentamente...
Parto...
Parto-me...
E sou pedaço escondido sempre à minha espera...

março 26, 2007

Partida

foto: Lena Queiroz
Parto hoje pelas águas esguias até o sol deixar de me ver

Parto na madrugada devagarinho, encostada a ti, meu amor
Parto na sombra dessa cidade transformada em véu
Parto à porta da tempestade, roubada do meu pertencer
E sigo flutuante em minhas garras de lince
E sigo flamejante na fúria da neblina
Escondo-me do sol e dos pássaros terrenos
Respondendo ao mar em meu apelo
Recorrendo à chuva em mim deserto
Renego a tudo... a tudo... a tudo
Com a pouca força que me resta
Com a pouca treva a que me agarro
Com as mãos cansadas de dar
Ondeio-me penumbra-óssea neutra
Olvido-me de alma e ser quem sou
Ordem absoluta da negridão a chamar-me
Rainha a mim mesma
Regência magnífica
Raio incolor
Raiva...
Rancor...
Ruído...
Ervas daninhas a cultivarem meu corpo
Evas pecaminosas a escarnecer de meu corpo
Entes gulosas abominam-me a fé
Ratam minuciosamente a minha coloração
Repetidamente vejo ante mim a coroa no meu rosto
Rasgado e carcomido ante a bruma a assomar-me
a PERCORRER-me... a Percorrer-me...



fevereiro 22, 2007

Mãos

Foto: Angelica
Dádiva é a entrega de dois corpos frente a frente despidos no seu interior...

novembro 29, 2006

Subversão

foto: Espírito da Luz
Onde se deita a luz
Onde o silêncio nos beija
Onde o vento murmura
Onde o tempo pára
Onde a voz me cega
Onde o ruído nos cruza
Ergo-me
Ergo-me em espiral
Revolta anti-oxigénio
Génio de mar
Mar revolto
Supra-sentidos soltos
Adamastora preeminente
Montanha-mel do onde
Onde...

setembro 26, 2006

...

foto: Nitsa

(Voltarei...)

setembro 15, 2006

Porque...

foto: Nuno Ferro
Porque às vezes me sinto sem cor
Porque às vezes não me sinto plena
Porque tem de ser assim digo-me
Porque não tenho mais para dar
Porque...
Porque ...
Porque sou eu assim eu mesma
E às vezes tão pequena porque não consigo voar...

julho 26, 2006

Amanheço

foto: ABrito

Despertei plena...
Braços cruzados no ventre
Lábios rasgados pela sede saciada
Julguei-me sentada a teu colo
Castigo...
Castigo sôfrego...
De teu julgamento...
Não existiam rostos
Não existiam mãos
Não existiam olhos
Apenas a luz...
A luz intra-corpo
A luz intra-sonho
A luz...
A luz...
A penetrar...
A balouçar
Salvação máxima
Alcançada pela pena cumprida
De te ter...
De nos termos...
De despertar e ver o espelho-água
Gritando às ondas o sorriso dessa entrega...


junho 06, 2006

Em Farol - Parte II (cont.)

Estava a ler um livro portador de um vírus de um amor irradiante, ancorado aos deuses e deixou-se adormecer de cabelo molhado envolta num turco rosa infiltrando por si mesma uma injecção de demência absoluta. Já tentara de todas as formas colorir o seu suicídio perfeito. Imaginara as diferentes formas de afugentar o mundo e conseguira isolar-se de tudo e todos num refúgio perfeito junto ao mar. Um apartamentozinnho medíocre mas que lhe dava o prazer de se sentir abandonada no meio das matas e pinheiros a circundarem-lhe o rastilho de si mesma. Viajara um pouco por todos os continentes e detivera-se na ilha mais completa que achou ser o farol condutor de uma mudança sincrónica sem o parecer da comunicação com pessoas vivas. Os mortos encarregavam-se de lhe trazer o correio, de lhe arrumar a casa e transformar deliciosas maravilhas de prazer culinário que raramente ingeria.
Um dia, mandou vir de propósito uma costureira exigindo um modelo sublime para tirar umas fotos, dizia, algo que fique fresco ao rubor do vento – e encomendou veludo roxo, ou talvez de um púrpura estranho, a verdade é que o vestido concebido pormenorizadamente recheado de detalhes semelhava-se a uma roupagem de uma cerimonia preciosa. Foi aí que chegaram os postais. Ela decorou-os um a um enchendo-os de memórias pessoais partilhadas com todas essas pessoas que de uma ou outra maneira perpassara com a sua vida interior e colorira com espaços alheios. Um desses postais chegou-me às mãos...

foto: Alexandre P.

maio 31, 2006

Em farol - Parte I

Era suposto serem umas três da manhã mas era ainda muito cedo, o relógio não apontava mais do que nove e meia da noite. A ausência, a espera, absorviam-na na sublimática cadência da permanência secreta de memórias embrenhadas em recalcamentos e supressões de memórias que tentava a todo o custo desviar de si mesma para o caixote de lixo, ao lado da secretária. Os jornais falavam-lhe da modesta sensação de se julgarem sabedores de tudo o que se passa no mundo. Não havia música ou qualquer ruído pressente de ser estranho ou pouco usual à janela daquele andar sossegado, onde se perdiam as noites e se ganhavam os dias no sentimento estranho de melancolia que lhe possuía agora os braços. E o telefone já tinha tocado algumas vezes e o gravador de chamadas, limitava-se a guardar as mensagens, como se guardam as caixas vazias de cereais e pacotes de cartão para mais cedo ou mais tarde se colocarem no repositor de reciclagem.

maio 29, 2006

Lifrep...

fotografia de A. Brito

Recorto-me... dentro do véu inofensivo a cobrir-me os olhos...
Recorto-me e esmago-me na insensibilidade de me decorar
Sei-me...
Insana apareço-me em nocturno vazio de meus seios capilares a gemerem na agonia do eu a pedir tanto esse abominar...
Vomito a dor dentro de mim...
Não sei mais apagá-la...
Engulo-a sem suster a respiração e emudeço...
Travo a laranjeira carcomida por vermes..
Neutralizar-me em esperança desfeita...
Desfazer-me em pedaços mãos espalhados no puzzle por desenhar...
Desconheço esse bem-estar da luz...
Sinto-a a percorrer a aura plena da manhã sandia
Finjo usar a máscara...
Finjo arrancá-la de mim mesma, toda, única
Finjo, de uma vez só, sugá-la de minhas entranhas
Não tenho mais em mim que retalhos...
Recorto-me...
Rendo-me à sofreguidão anterior a mim mesma
Anulo-me em frenética exaustão de decadência
Mariposa em murcho rebento a estilhaçar-se
Fugidia...
Armada de tesouras linha após linha...
Num enfeite
Num percurso consciente dessa ausência
De poder tanto quanto quero: RECORTAR-me

dezembro 13, 2005

The bride



It starts in my belly
Then up to my heart
Into my mouth
I can’t keep it shut
Do you recognize the smell
Is that how you tell
Us apart
I fool myself
To sleep and dream
Nobody’s there
No-one but me
So cool
You’re hardly there
Why can’t this be killing you
Frankenstein would want your mind
Your lovely head
Your lovely head

Goldfrapp

novembro 29, 2005

De um lado da sala...



De um lado da sala estava a ausência da chuva. Um corpo reclinado no sofá ansioso pela manhã a fim de poder dormir. Abraçava a chávena de café borbulhante como se de uma criança frágil se tratasse e no tédio citadino ouvia as asas das pombas a fumegarem sombras estranhas no tecto de iluminação quase azul. Tinha nascido há quase um século e deitara-se no aconchegar murcho de poder vivenciar a intensidade proscrita daquilo a que chamavam juventude. O quadro na parede eram linhas direitas. O acre do café inadoçado amargava-lhe o olhar. Olhar meigo, redondo, negro... tão negro duma profundidade mística de cais abandonado... O telefone tocou. Ouviu uma pausa. Tocara uma só vez. Sentia um calafrio... os seios mimosos acariciavam-se mutuamente em nudez de segredos não revelados nesse afago. Estaria pronta a enfrentar a campainha grítica daquele sem fios a incendiar-lhe a curiosidade? Resolveu adormecer antes que fosse manhã. Resolveu sonhar antes que fosse tarde e resolveu acordar para mais uma noite de insónia abraçada ao fulminar vital.
Do outro lado da sala chovia. Um[...]