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fevereiro 14, 2007

Two

Foto: Catarina Mateus

As Lágrimas respiram em veludos de beijos secretos.

janeiro 09, 2007

Sentada...

Foto: Miguel Delgado e Silva

Arrecadei as esperanças e deitei-me em meu túmulo. Não me lembro se antes , se depois de morrer... Só sei que a conversa não passava mais do que o sussurro das árvores a compactuarem um sorriso lesto comigo... assomava-se em minha direcção cada vez mais rápido cada vez mais mais e mais narcoticamente inevitável e insensível à coragem de minhas pernas que tremiam desnudadas na cadeira de seda... Era sonho? Cabisbaixei-me a ver se conhecia aquele chão. Sabia que lá fora havia luar. Havia uma luz prata a inundá-lo... Que conversa era essa... fugidia... enganadora... Trajava-se a noite de Primavera e eu não pude evitá-lo.... Sabia a sal e a pimenta esse fumo... essa corça enganadora a bater com seus passos pela floresta fora a alcançar-me... Inerte... fiquei inerte... as pernas tremiam cada vez mais... uma flor de pecado tocou-me e prendeu-se-me aos cabelos... mantive-me na cadeira... Julgamento de expulsão... crime almofada de tecto tumular, a dessa cadeira... deitei-me de mãos cruzadas no peito... deitei-me...? Acho que petrifiquei nos sete palmos... sentada...

novembro 13, 2006

Passeio

Foto: Germeson H Dias

Damos os mesmos passos
de mar ausente
A areia grava-nos lado a lado
caleidoscópio granífero
Damos os pequenos passos
de mão presente
A líquida salgada a levitar-nos
em ondas ferozes
Damos...
de mente inversa
desavessando-nos
lentamente
suavemente
no correr de sedas
em lençóis de água
em bancos de areia
e o crepitar de folhas
(em nossos pés)
quase a queimar-nos
violentamente
no embaraço digital
de nossas pegadas...

agosto 05, 2006

Chuva...

Foto: Toninatto
Sentir as gotas de chuva no meu cabelo ao sol
Afundar-me nelas...
Adormecer nesse calor húmido
Nessa transparência de ser-me...
E navegar...
Navegar meus pés na terra molhada
Abraçada a essa frescura...
Sentir...
De mãos e pés nús...
Mãos erguidas ao sol
Pés enterrados à lama da vida...
E renascer...
Renascer na benção
Concebida pelo existir-me..

junho 22, 2006

Em Farol - o fim

O farol... como não pensei nisso antes, um momento que fosse... antes... Procurarias o nosso refúgio, o farol... Um turbilhão de cores e flashes fulminantes a pregarem-se-me à cabeça como um vómito sandio a aniquilar toda a beleza triangular a esvair-se pelas minhas mãos, regredir, a regredir, em espiral, volteando um subúrbio pulmonar de coração pungente a abraçar-me o peito num sufoco... em espiral. Corri para te alcançar... corri... corri, tropecei no empregado de mesa, pisei algumas das senhoras primorosas e corri à varanda, à varanda, ao fundo o mar... o mar... a música heraldicamente marroquina a saltar-me pelos olhos... vi ao fundo uma sombra branca, branca tão branca como a tua mão que segurei de seguida... quis dizer-te o quanto amei a nossa vida utópica!.. o quanto... estavas pálida muito pálida, pareceu-me que sorriste enquanto te arrancava do lençol púrpura de rosas negras, sem espinhos, polinizadas a orquídeas brancas... o teu pulso... o teu pulso... creio que o senti… juro que o senti ainda ou seria um reflexo da agulha ancorada à tua veia... ou da líquida morfina a sugar-te a respiração e condensando, congelando, os teus lábios de gueixa pura... tão pura... e fiquei ali a ver as gaivotas, a sentir o vento, a ouvir de fundo aquela música estranhamente familiar... as ondas... as ondas... a ouvir... a festa continuou e, no dia seguinte, propagou-se, alastrando-se colorida no teu funeral... irónica... mesmo depois de todo o sal sugado das entranhas de todos a quem tanto querias simplesmente bem... sendo irónica... ironicamente irónica...
Beijo... simplesmente e tão simplesmente beijo... em... a.... em.... ... ... ti....

maio 30, 2006

Pirilampos


Dizem que ao nascer do sol me encontrarei contigo...
Dizem...
Não sei até que ponto a verdade me agarrará as mãos..
Trarás no teu colo essa luz, fraca, ténue
Gerada no encantamento de teu próprio seio
E eu agarrei a palavra, escrita nos círculos luminosos
Desenhados por ti à volta dos candeeiros de rua...
Só espero que ao nascer do sol ainda brilhes...
Dizem...
Dizem que me encontrarei contigo...

maio 27, 2006

Traços - parte III


Primeiro minha boca serena... sufocava densa dentro da tua... Rasgámos os lencóis de nossos corpos... implorámos ficar um junto do outro enquanto as lágrimas asssomavam uma lagoa de sal e mel à sombra da grande árvore de madeira, onde tantas outras vezes nos abraçávamos. Cinzel esguio vincava meu corpo em sangue... vincava-o em traços de cor e sorriso, a pouco e pouco, bem devagar... O arrepio no fundo das costas... o relógio dentro do copo de água, a flutuar... as ondas das aves a cobrirem-nos de grito e desespero... Tremíamos... Tu voltaste-te para a Alba e mergulhaste suave:
- Vem ter comigo...
Deram as mãos suaves e eu adormeci no espectro lunar, a agudizar a sombra do primeiro raio da manhã...
- É cedo...
E o levitar de meus barcos oníricos afogou meu corpo nos espelhos cansados dessa nudez pura... imobilizando-o no sono meigo.

fevereiro 14, 2006

Negro

HR Giger "The spell"
Modelamos com as próprias mãos a lama que o tempo vai secando, esquecemos rostos, figuras, ataques de sobremesa em conversas de café... Será essa mesa a da escrita ou a do convívio pessoano, tentando sempre a alma de Deus?... Onde estará o conforto? O demónio que nos possuiu e nos transformou em crianças? A chama que nos banhava a alma e gemia na telepatia além voz... O sorriso aberto em que penetrámos... A ponta da língua a sugar meu corpo... A esfíngica Beatriz da verdade suprema a entrelaçar os dedos... Modelamos com as próprias mãos o segredo em paralelismos, mas esquecemo-nos de Al Berto, esquecemo-nos da graça do partir e ficar... perdemo-nos... e nunca somos os entes sublimes, outrora tecidos na quimérica voadora dos laços do sonho...

janeiro 20, 2006

Insonia II

Incomoda-te o tempo que fomos partilhando em conquistas? Não produzo sonho. Não produzo a enzima do sonho recorrente e retenho em mim as certidões mais absurdas do carinho nunca antes dado a conhecer. Perturbo-me. Frente ao espelho perturbo-me na podridão execrável deste sentimento de insónia de sentidos. Não sei mais onde buscar essa duna deixada junto a um pórtico qualquer que nunca me soube abastecer devidamente.