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outubro 19, 2006
O sol adormeceu no meu leito. Crescia a densa saudade de voltar a ser nuvem e esvoçar pelo ar ácido da chuva. Na rua perpassavam-se imagens de pessoas ausentes de sentimentos, dementes de sentimentos e ao fundo ouvia-se a luz de um piano. A correria silenciosa dessas janelas de carro molhadas pela chuva... via a calçada cintilar-se de dor numa criança semi-nua, pela sua inocência, levando uma boneca molhada pelo chão. A mãe caminhava erecta num tom franzino quase mecânico e arrastava-a em passos largos obrigando-a a esvoaçar pardaliticamente. Também ela desejava ser nuvem? Também ela se movia nesse esvoaçar... e terá alguma vez o sol adormecido no peito? A boneca molhada ao fundo da calçada. Uma perna a cada lado... as tranças cor-de-rosa a gemerem de água no nevoeiro nú da rua... Segui-a com os olhos estrada fora até a condensar num só ponto... o retrovisor mantinha-a distante e presente nos salpicos de chuva a espelharem pelos vidros...
junho 13, 2006
Em Farol - Parte III (cont.)
Tinha o desenho de um tigre a saltar, um salto violeta daqueles que só Al Berto soube transmitir no recanto da sua escassa obra. Dizia-me simplesmente isto:Escuta de mansinho as portas brancas de tua antiga casa, lembra-te da tua face curiosa e do beijo roubado numa chuva rasgada pelo fugir de um táxi. Lembra-te de tuas pálpebras que beijei no silêncio enredando-te os dedos em fita de seda. Lembra-te... nunca te recordes... lembra-te apenas. A memória foi, é, será, unicamente minha...
E este simplesmente foi simplesmente simples. Junto vinha um envelope azul com o convite para mais um lançamento de um livro e foi aí que me revi numa festa, repleta de luzes, de feixes de luz agradáveis onde aperitivos e prazeres para o espírito e estômago não faltavam. Havia muita gente, de diferentes faixas etárias, de etnias diferentes e um burburinho sorridente, que os unia mastigando entre dentes, que todos eles haviam recebido juntamente com o convite um postal. A curiosidade enfeitava-os a todos porque de uma maneira ou de outra havia um segredo outrora partilhado a que o postal se referia.
No salão pareceu-me absurda a decoração com rosas vermelhas e orquídeas brancas um tanto ou quanto excessiva e roubando o respirável som de música árabe de fundo. De súbito ouviu-se a tua voz e a claridade encheu a sala de olhares a procurar-te ouviu-se a tua voz... essa tua voz... propunha um brinde à imortalidade do poema... razão sempre te achei um poema... sempre.. nisso não há que enganar... Mas a voz não era a tua... Não era naturalmente a tua.... vinha de um projector de imagem gigante que mandaras colocar na parede..
foto: James Balog
esboço de
Cinza
7
forma(s) de sentir
maio 16, 2006
Sexo fraco... incapaz de dar à luz poesia
"Se eu fosse mulher - na mulher os fenomenos histéricos irrompem em ataques e cousas parecidas - cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia..."Fernando Pessoa
in Carta a Adolfo Casais Monteiro
in Carta a Adolfo Casais Monteiro
sobre a génese dos Heterónimos
Creio que Lispector lhe murmura lá nos céus: "Perdão é um atributo da matéria viva".
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Cinza
1 forma(s) de sentir
Rasgos: Arte, Escritores
fevereiro 21, 2006
fevereiro 17, 2006
fevereiro 14, 2006
Negro
HR Giger "The spell"Modelamos com as próprias mãos a lama que o tempo vai secando, esquecemos rostos, figuras, ataques de sobremesa em conversas de café... Será essa mesa a da escrita ou a do convívio pessoano, tentando sempre a alma de Deus?... Onde estará o conforto? O demónio que nos possuiu e nos transformou em crianças? A chama que nos banhava a alma e gemia na telepatia além voz... O sorriso aberto em que penetrámos... A ponta da língua a sugar meu corpo... A esfíngica Beatriz da verdade suprema a entrelaçar os dedos... Modelamos com as próprias mãos o segredo em paralelismos, mas esquecemo-nos de Al Berto, esquecemo-nos da graça do partir e ficar... perdemo-nos... e nunca somos os entes sublimes, outrora tecidos na quimérica voadora dos laços do sonho...
esboço de
Cinza
1 forma(s) de sentir
janeiro 29, 2006
janeiro 26, 2006
Amálgama
Os tempos mais usuais na escrita eram finalidades descritas por sequências de episódios sem limites, sem limitações aflorados de diamantes esperma a fecundarem a escrita de euforia e nostalgia dinâmica. Interrompeu a secretária agregada a vestígios de cinza e gestos de pincel e tinta substituídos por migalhas e bolachinhas trituradas entre papéis e livros a aglomerados a estatuetas e peças de roupa, um ou outro frasquinho de colónia, um cabide nu, um lenço púrpura no chão e três ou quatro chávenas gélidas com colher espalhadas ao redor da cama desfeita por o corpo que se inquietava a abrir a porta. Tão cedo, porque viera ele tão cedo, faltava-lhe o suco da retina a camuflar o peito desnudado... entrou, sentou-se no sofá enquanto ela tomava banho. As plantas precisavam de ser regadas, rasgos de comida chinesa e garrafas de bourbon vazias pelo chão mitificavam a sala em galáxia sorvedoura de invasão pós-terramoto. picture:Klimt
esboço de
Cinza
2
forma(s) de sentir
janeiro 25, 2006
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