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maio 30, 2007

Portões de sabre

Foto: David Sousa
Apeteceu-me pintar a cara de negro e integrar-me na solidão azul da noite a fazer-se de meu cobertor... Era já tarde para me fundir no rosto da noite... Era já tarde para adormecer no corredor paralelo ao índice supremo dos meus sentimentos confusos expulsados em colorido pela íris de uma florzinha sem pétalas... esvoaçada por um simples sopro...
Era inevitável encontrar os sapatinhos vermelhos debaixo da cama junto do rabinho do gato adormecido e esquecido ao pó... o gato vermelho que ambos, tu e eu fizemos de árvores só porque não nos apetecia chorar as lágrimas devidas... Promete-me... promete-me uma coisa muito simples... muito clara: não me deixes adormecer até transformar a energia desta fresta em novidade e estranhamento de petulâncias e infantis medidas sociais do dia a dia. Trevo da sorte em toda a rua verde à volta do castelo... ergue-se a ponte levadiça.. ergue-se e abate-se sobre o chão... vejo tuas listras no ventre... é madrugada... já se abrem e ouço teu choro a dizer , o coração a ficar, os olhos a vidrar e o corpo a partir...

abril 19, 2007

Partida III

foto: Mariah
Não me ocorre melhor ideia
Senão essa mesma de evadir-me em sol
Não me ocorre melhor ideia
Senão vestir as minhas asas de sonho
E tatuá-las de negro na dor de me ser
Não me ocorre melhor ideia
É tempo
É chegado o tempo
É tempo desse chegado
momento de tempo
Não me ocorre melhor ideia
Lancem os céus sob meus pés
Permitam-me partir...

março 11, 2007

Cléo...

Foto: Cinzaxtulk

Sorri ao ver-te transformada em árvore...

fevereiro 28, 2007

Rasurai-me....

foto: José Lopes

Recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

Al Berto (Horto de Incêndio 1996)

fevereiro 06, 2007

Além-nuvens...

foto: grENDel

Cada vez mais devagar
Cada vez mais indolor
Sou o pássaro que se esconde atrás do ponteiro
Que perdeu as asas sei lá onde
Não temo mais o voo
Não temo mais a súbita trepidação do abismo
Sei que estou nele
E cada vez esvoaço bem mais no fundo
Bem mais na inexactidão da confiança
E sobre nós assoma-se a passagem
A perturbação da fronteira ante nossos olhos
Temo-nos e que mais tem que nos importar?
A vida... A vida responde de dentro do bolso
A vida...
O relógio não pára...
A vida...
E bem depois dela
Estaremos de mãos dadas a ver o tempo passar?

janeiro 09, 2007

Sentada...

Foto: Miguel Delgado e Silva

Arrecadei as esperanças e deitei-me em meu túmulo. Não me lembro se antes , se depois de morrer... Só sei que a conversa não passava mais do que o sussurro das árvores a compactuarem um sorriso lesto comigo... assomava-se em minha direcção cada vez mais rápido cada vez mais mais e mais narcoticamente inevitável e insensível à coragem de minhas pernas que tremiam desnudadas na cadeira de seda... Era sonho? Cabisbaixei-me a ver se conhecia aquele chão. Sabia que lá fora havia luar. Havia uma luz prata a inundá-lo... Que conversa era essa... fugidia... enganadora... Trajava-se a noite de Primavera e eu não pude evitá-lo.... Sabia a sal e a pimenta esse fumo... essa corça enganadora a bater com seus passos pela floresta fora a alcançar-me... Inerte... fiquei inerte... as pernas tremiam cada vez mais... uma flor de pecado tocou-me e prendeu-se-me aos cabelos... mantive-me na cadeira... Julgamento de expulsão... crime almofada de tecto tumular, a dessa cadeira... deitei-me de mãos cruzadas no peito... deitei-me...? Acho que petrifiquei nos sete palmos... sentada...

dezembro 03, 2006

Botão em flor

foto: Alba Luna

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...

Clarice Lispector


maio 22, 2006

Antes de partir...

Trago-te as palavras, e este cigarro que fumaremos os dois... e do mar recolhi esta coroa de rubras escamas e o silêncio dos náufragos... uma concha, um punhado de sal e a moeda de ouro que te enterro na boca antes de prosseguires viagem.
Al Berto
Canto do Amigo Morto

fevereiro 21, 2006

Undel..ta..

Wieslaw Walkuski