Em Farol - Parte III (cont.)
Tinha o desenho de um tigre a saltar, um salto violeta daqueles que só Al Berto soube transmitir no recanto da sua escassa obra. Dizia-me simplesmente isto:Escuta de mansinho as portas brancas de tua antiga casa, lembra-te da tua face curiosa e do beijo roubado numa chuva rasgada pelo fugir de um táxi. Lembra-te de tuas pálpebras que beijei no silêncio enredando-te os dedos em fita de seda. Lembra-te... nunca te recordes... lembra-te apenas. A memória foi, é, será, unicamente minha...
E este simplesmente foi simplesmente simples. Junto vinha um envelope azul com o convite para mais um lançamento de um livro e foi aí que me revi numa festa, repleta de luzes, de feixes de luz agradáveis onde aperitivos e prazeres para o espírito e estômago não faltavam. Havia muita gente, de diferentes faixas etárias, de etnias diferentes e um burburinho sorridente, que os unia mastigando entre dentes, que todos eles haviam recebido juntamente com o convite um postal. A curiosidade enfeitava-os a todos porque de uma maneira ou de outra havia um segredo outrora partilhado a que o postal se referia.
No salão pareceu-me absurda a decoração com rosas vermelhas e orquídeas brancas um tanto ou quanto excessiva e roubando o respirável som de música árabe de fundo. De súbito ouviu-se a tua voz e a claridade encheu a sala de olhares a procurar-te ouviu-se a tua voz... essa tua voz... propunha um brinde à imortalidade do poema... razão sempre te achei um poema... sempre.. nisso não há que enganar... Mas a voz não era a tua... Não era naturalmente a tua.... vinha de um projector de imagem gigante que mandaras colocar na parede..





















